No Judaísmo
O Reino de Deus é freqüentemente referido no
Tanakh. Este conceito está muito ligado à crença judaica de que
Javé (Deus) iria restaurar a nação de
Israel. Aliás, o Reino de Deus foi prometido por Javé ao
Rei David de Israel. Também no Tanakh, Javé é apresentado como o verdadeiro Rei de
Israel, sobretudo a partir da
monarquia, quando são ungidos reis para governarem o povo em nome de Javé. Neste caso o Reino de Deus é mais um reino material com características
políticas, ou seja um reino deste mundo, assemelhando-se a uma
monarquia teocrática. Porém, depois do
Exílio na Babilônia, o conceito de Reino de Deus foi espiritualizado, passando o
culto de Javé a ser predominantemente religioso e universal. Esta espiritualização deveu-se muito ao esforço e trabalho de vários
profetas judeus.
No CristianismoEntre os
teólogos cristãos existem conceitos divergentes, mas não incompatíveis quanto ao que é concretamente o Reino de Deus, que podemos sintetizar em três pontos:
· Um governo real e/ou universal de
Deus estabelecido no
Céu e também na
Terra completamente renovada no fim dos tempos, no dia do
Juízo final e com existência eterna;
· Uma condição interior de dimensão pessoal, de caráter
espiritual,
moral, mental e psíquico/psicológico, existente em todos aqueles que estão na
graça de Deus e que seguem verdadeiramente a
vontade de Deus e os ensinamentos e exemplo de
Jesus Cristo;
· A
Igreja Cristã.
Pelo menos segundo a doutrina da Igreja Cristã, o Reino de Deus tem simultaneamente uma dimensão pessoal, de caráter espiritual e moral, em cada homem; e uma dimensão universal que se manifestará no fim dos tempos, no dia do
Juízo Final, quando tudo se consumirá e estabelecerá uma nova Terra e um novo Céu, onde os justos vivem em Deus, com Deus e junto de Deus. Tal só irá acontecer quando o Reino, que já foi instaurado na Terra por
Jesus, já estiver perfeito e suficientemente maduro.Os
valores principais do Reino de Deus são a
verdade, a
justiça, a
paz, a
fraternidade, o
perdão, a
liberdade, a
alegria e a
dignidade da
pessoa humana.
Reino de Deus e Reino dos CéusEnquanto o
evangelho segundo
São Mateus se dirige aos
judeus na maioria das vezes falando em Reino dos Céus, no evangelho segundo
São Marcos e
São Lucas falam sobre o Reino de Deus, expressão essa que tem o mesmo sentido daquela, ainda mais que inteligível para os que não eram judeus. O emprego de Reino dos Céus, no evangelho segundo São Mateus, certamente é devido à tendência, no
judaísmo, de evitar o uso direto do nome de
Deus. Na verdade é preciso entender que "Reino de Deus" em sua interpretação direta da palavra nos induz a uma verdade que não pode ser negada: o Reino é de Deus. Esta frase aponta para o Rei (Deus), enquanto a expressão "Reino dos Céus" aponta para a origem do Reino. Portanto em sua interpretação direta da palavra nos induz a uma verdade que também não pode ser negada: o Reino vem dos Céus, querendo isto dizer que o Reino não é feito de políticas nem de relações sociais terrenas. O Reino tornar-se-ia, portanto mais do que numa simples
monarquia, mas sim numa grande
família de
amor onde o Pai (Deus) viverá em, com e junto dos seus filhos (os humanos bem-aventurados) e onde não irão existir mais súditos, governados, nem classes sociais distintas.
Anúncio e características do Reino
O Reino de Deus, que foi inaugurado na terra por Cristo, está destinado a acolher todos os homens, mas foi primeiramente anunciado aos filhos de
Israel. Este
Reino foi já anunciado por
João Batista, que exortou as pessoas a arrependerem-se, porque está próximo o Reino dos Céus (
Mt 3,2). Mais tarde,
Jesus de Nazaré, o prometido
Messias e
Salvador da humanidade, foi batizado e
Ungido (
Lc 3,30-31), começando assim o seu ministério, que se centrou necessariamente em torno do Reino de Deus. Ele instruiu os seus
apóstolos a pregar que está próximo o Reino dos Céus. Essas instruções seriam repetidas a todos os seus discípulos, a todos os cristãos (Mt 10,7; 24,14; 28,19-20; At 1,8). A
Bíblia inteira gira em torno da vinda do Messias e do Reino do Deus. Por conseguinte, o Reino de Deus, que é uma grande realidade misteriosa, tem um grande sentido
profético e
missionário na vida da Igreja Cristã.Jesus, através de
parábolas, convida todas as pessoas a entrar no Reino de Deus, ou seja, tornar-se discípulos d'Ele, para conhecer os mistérios do Reino dos Céus (Mt 13,11). Segundo o
Catecismo da Igreja Católica, Jesus e a presença do Reino neste mundo estão secretamente no coração das parábolas. Para os que ficam "de fora" (
Mc 4,11), tudo permanece enigmático. Jesus exorta os seus discípulos a buscar, em primeiro lugar, o Reino de Deus e sua
justiça (Mt 6,33).
O Reino de Deus, que não terá fim e que já está no meio de nós (Lc 17, 21), é
justiça,
paz e
alegria no
Espírito Santo (Rm 14,17); é o fim último ao qual Deus nos chama; é obra do
Espírito Santo; e é também um
império eterno que jamais passará e…jamais será destruído (Dn 7,14).Todas as pessoas que querem pertencer ao Reino de Deus precisam de converter-se, de realizar a vontade divina, de ter fé em Jesus e de acolher a sua palavra. De fato, Jesus convida todas pessoas à
conversão (um pré-requisito para o acesso ao Reino), a renunciar o
mal e o
pecado (um grande obstáculo para o acesso ao Reino) e a arrependerem os seus pecados e experimentarem o ilimitado
perdão e
misericórdia de Deus. Este apelo constitui a parte fundamental do anúncio do Reino de Deus: "Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho" (Mc 1,15). Este apelo à conversão é especialmente para os não-cristãos e os pecadores, pois Jesus afirma que não vim chamar justos, mas pecadores (Mc 2,17) e que
Deus Pai sentirá imensa alegria no céu por um único pecador que se arrepende (Lc 15,7). Esta conversão e
remissão dos pecados (Mt 26,28) só foi possível pelo sacrifício de Jesus, Filho de Deus Pai, na
cruz, constituindo a suprema prova do
amor que Deus tem pelos homens. Jesus afirmou que não entrará no Reino todo o que não o receber com a mentalidade de uma criança (Mc 10,15), quem não nascer de novo (
Jo 3,3), aquele que não faz a
vontade de meu
Pai que está nos céus (Mt 7,21) e os injustos (1Cor 6,9).Para ter acesso ao Reino de Deus, é preciso passarmos por muitas tribulações (At 14,22) e também cumprir a Lei de Deus, porque aquele, portanto, que violar um só destes menores mandamentos e ensinar os homens a fazerem o mesmo [vai] ser chamado o menor no Reino dos Céus; aquele, porém, que os praticar e os ensinar, esse será chamado grande no Reino dos Céus (Mt 5,17-19).As
Bem-aventuranças, pregadas por Jesus no famoso
Sermão da Montanha e que anunciam e revelam aos homens a verdadeira
felicidade, são por isso também um grande anúncio da vinda do Reino de Deus através da palavra e ação de Jesus e também do caráter das pessoas que pertencem ao Reino. Jesus exorta as pessoas a seguir este caráter exemplar, para poderem depois entrar no Reino de Deus, ou seja, para obterem a
salvação e a
vida eterna.Uma vez inaugurada na Terra por Jesus, ninguém, nem mesmo
Satanás, consegue travar e impedir a edificação e a realização final e perfeita do Reino de Deus. Mas, este Reino, enquanto não atingir a sua perfeição, é ainda atacado pelos poderes maus, embora estes já tenham sido vencidos em suas bases pela Morte na
cruz e Ressurreição de Jesus. Satanás, um ser muito poderoso e maligno, só consegue atrasar a realização final do Reino na Terra, através do cultivo do
ódio no mundo contra Deus. Este Reino, para grande desapontamento de muitos
judeus da altura, não vinha restabelecer o reinado temporal de
Israel e não é um reino deste mundo, ou seja, não é um reino com características
políticas, mas sim com características predominantemente espirituais. Resumindo, o Reino de Deus, que cresce como uma semente que Deus coloca no coração de cada homem (dimensão pessoal), é a plena instauração da lei do
amor a Deus e ao próximo e terá a sua realização final e perfeita na
vida do mundo que há-de vir, na nova Terra e no novo
Céu, implantado por Deus no fim dos tempos (dimensão universal).
Sinais do Reino
Jesus operou muitos milagres, prodígios e sinais (At 2,22), que provam que Ele é o
Messias anunciado, o Filho de Deus e o Salvador enviado por Deus Pai e que o Reino de Deus está presente n'Ele e já está no meio de nós (Lc 17, 21). A operação destes sinais milagrosos, que pode ser ocasião de escândalo para alguns, tem por objetivo convidar as pessoas a crerem em Jesus e nas suas palavras. Aos que a Ele se dirigem com
fé, concede o que pedem. Apesar dos seus milagres serem tão evidentes, Jesus é rejeitado por alguns e até acusado de agir por intermédio dos
demônios. Jesus, que não veio abolir todos os males da Terra, libertou ainda assim certas pessoas dos males terrestres da
fome, da injustiça, da
doença e da
morte, antevendo assim que, quando chegar na altura da realização final do Reino de Deus, todos estes males irão desaparecer. Aliás, Jesus operou sinais messiânicos veio para libertar os homens da mais grave das escravidões, a do
pecado, que os entrava em sua vocação de filhos de Deus e causa todas as suas escravidões humanas. Os
exorcismos que Jesus efetuou libertaram homens do domínio dos demônios, afirmando que se é pelo
Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou a vós (Mt 12,28). Isto prediz também que o advento do Reino de Deus é a derrota do reino de
Satanás e antecipa a grande vitória de Jesus sobre "o príncipe deste mundo".Jesus, embora não curou todos os doentes do mundo, curou ainda assim vários enfermos, incluindo
leprosos, que naquela altura eram isolados e altamente discriminados. Estas curas eram sinais da vinda do Reino de Deus e anunciavam uma cura mais radical: a vitória sobre o pecado e a morte pela
Ressurreição de
Jesus. Na cruz, Cristo tomou sobre si todo o peso do
mal e tirou o "pecado do mundo" (
Jo 1,29). A entrada de Jesus em
Jerusalém, a
Transfiguração e a
Ascensão de Jesus são também sinais da vinda do Reino e do começo da consumação do desígnio de Deus sobre a sua Criação (o estabelecimento do Reino de Deus). Resumindo, o Reino de Deus manifesta-se lucidamente aos homens na palavra, nas obras e na presença de
Cristo.