quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Tudo que você deve saber sobre o filme a Bussola de ouro ( The golden compass).


Eis os principais pontos e fatos a serem entendidos sobre a trilogia “Fronteiras do Universo” (em especial o filme “A Bússola de Ouro”) e seu autor (Atenção: contém muitos spoilers!):
As acusações que cercam a obra são de promover o ateísmo, pois ironiza o papel da religião, e denigre o Cristianismo, na figura da Igreja Católica.
A New Line, que é a produtora do filme, no trailer está vinculado “A Bússola de Ouro” ao filme “O Senhor dos Anéis”, que também foi produzido por ela. Mas é importante saber que são obras diferentes: além das questões religiosas, pois Tolkien (autor de “O Senhor dos Anéis”) era católico e suas obras estavam impregnadas de filosofia cristã, o autor de “A Bússola de Ouro” (Philip Pullman) é publicamente crítico às obras tanto de Tolkien (O Senhor dos Anéis) quanto de Lewis (As Crônicas de Nárnia) - Clique aqui para ler a entrevista (em inglês).
Na história da trilogia “Fronteiras do Universo” existe um grupo religioso, chamado Magisterium, que sufoca a individualidade e controla as almas (os daemons ou dimons - na tradução brasileira) das crianças, além de financiar os vilões. É evidente que o termo Magisterium é uma ligação ao chamado Magistério da Igreja Católica. Pois Ela tem como pilares de sua fé a Sagrada Escritura (Bíblia), a Tradição (Sua experiência histórica) e o Magistério (os bispos, sucessores dos apóstolos). Nos livros, as comparações à Igreja são ainda mais explícitas e quem já leu a trilogia Fronteiras do Universo sabe disso.
Também, na história, as pessoas têm sua alma “encarnada” como forma de animais que as acompanham, chamados daemons. Os empregados normalmente têm forma de cães. E os daemons das crianças podem mudar de forma. O termo daemon, na religião grega, é dado aos espíritos iluminados (de heróis), mas no catolicismo, foi transferido como um termo aos espíritos malignos, demônios. Mesmo com a origem “positiva”, Pullman utilizou o termo com o objetivo de ironizá-lo, como se cada pessoa tivesse o seu “demônio da guarda”.
A protagonista da história é uma garota, chamada Lyra Belacqua, possuidora da bússola dourada, que contém a “Verdade suprema” - coisa típica de “O Código da Vinci” e “O Segredo”. Ela é perseguida pela Igreja que a considera a nova Eva e quer matá-la, antes que ela repita o pecado original (isso, a libertação final está ligada a Lyra se envolver em uma tentação!). Lyra conhece um anjo que comanda um exército, que sabe do seu poder, e o anjo a procura para tê-la como sua aliada. Um dos objetivos é ir ao mundo dos mortos para encontrarem com Roger – um amigo de Lyra e o pai de Will, que haviam morrido. O caminho é longo e lá chegando, através de aberturas feitas pela faca sutil, eles libertam todos os mortos ou fantasmas. O mundo dos mortos é apresentado com um campo de prisioneiros criado pela Autoridade no princípio dos tempos.
E, leia como o autor descreve a figura intitulada Autoridade:“A Autoridade, Deus, o Criador, o Senhor, Yahweh, El, Adonai, o Rei, o Pai, o Todo-Poderoso, todos esses são nomes que ele deu a si mesmo. Ele nunca foi o criador. Ele era um anjo como nós, o primeiro anjo, é verdade, o mais poderoso, mas era feito de Pó como nós somos, e Pó é apenas um nome para o que acontece quando a matéria começa a compreender a si mesma. A matéria ama a matéria. E busca saber mais a respeito de si mesma, e o Pó adquire forma. Os primeiros anjos se condensaram a partir do Pó e a Autoridade foi o primeiro de todos. Ele disse aos outros, que vieram depois, que ele os havia criado, mas era mentira. Um desses que vieram mais tarde era mais esperto do que ele, descobriu a verdade, de modo que ele o baniu. Nós ainda o servimos. E a Autoridade ainda prevalece no Reino e Metatron é seu regente”.
Metatron, uma figura que fica entre a representação de um anjo supremo e muito poderoso e a figura de Deus Pai, é morto ao final da trilogia, atraído para uma armadilha feita pela Sra Couter e por Lord Asriel, que se unem para se lançarem no abismo e morrerem juntos. Pullman descreve ao final esta personagem:“O Regente era um ser cujo profundo intelecto tivera milhares de anos para se desenvolver e se fortalecer, e cuja sabedoria e conhecimento se estendiam a um milhão de universos. A despeito disto, naquele momento estava cego por duas obsessões: destruir Lyra e possuir sua mãe. Antes deste combate final, Metraton havia dado ordem aos anjos que transportassem a Autoridade para local seguro. Quando os anjos deixaram a Montanha Nublada – o reino dos céus – furtivamente, a Autoridade foi avistada. Em vez de lhe dar um corpo de guarda de muitos regimentos, que só atrairiam a atenção do inimigo, tinha confiado na obscuridade da tempestade, calculando que naquelas circunstâncias um grupo pequeno seria mais seguro que um grande. Neste instante podia-se ver o interior da liteira: um ser indescritivelmente idoso. Ele não era fácil de ver porque a liteira era toda fechada com cristal que cintilava e refletia de volta a luz envolvente na montanha. Mas não escondia a decrepitude aterradora, de uma face encovada, mergulhada em rugas, de mãos trêmulas, de uma boca balbuciante e olhos remelentos.
Um trecho do livro “A faca sutil” que cita a Igreja Católica:“- Uma revolta contra a Igreja?- Em parte, sim. Houve uma época em que ele pensou em usar a força, mas desistiu disso.- Por quê? A Igreja era forte demais?- Não, isso não deteria o meu amo - disse o velho criado - Olhe, isso pode parecer estranho, Serafina Pekkala, mas conheço aquele homem melhor do que qualquer esposa, melhor do que uma mãe poderia conhecer. ele tem sido meu amo e meu objeto de estudo a quarenta anos. Não consigo acompanhá-lo nas alturas do seu pensamento, assim como não consigo voar mas posso ver aonde ele estar indo, mesmo que não possa segui-lo. Não. Acredito que ele desistiu de uma revolta contra a igreja não porque a Igreja fosse forte demais, mas porque ela é fraca demais para valer apena lutar.- Então… o que ele está fazendo?- Acho que esta iniciando uma guerra mais elevada. Acho que está pretendendo uma revolta contra o poder mais alto de todos. Ele foi procurar a morada da própria Autoridade e vai destruí-la. É o que eu penso. “
E, note o que o autor diz do Cristianismo:“Disse que toda a história da vida humana tem sido uma luta entre o conhecimento e a ignorância. Ela e os anjos rebeldes, os seguidores do conhecimento, sempre tentaram abrir as mentes; a Autoridade e suas igrejas sempre tentaram mantê-las fechadas, ignorantes”.
A produtora New Line, tentando amenizar a polêmica, colocou os pontos “mais salgados” da obra em segundo plano, prejudicando assim (conforme depoimento dos fãs) a linha de raciocínio da história. Philip Pulman acompanhou o processo (veja o que ele disse sobre isso). Dessa forma, as críticas sobre a produção são muito negativas e desfavoreceram também o resultado na bilheteria. Mas, mesmo assim, elementos explicitamente anti-católicos permaneceram no filme, como a semelhança das sedes do Magisterium com as catedrais góticas e o símbolo da instituição que tem vínculos com o monograma da Virgem Maria (clique aqui para saber mais!)
A Liga Católica argumentou que o problema maior está na divulgação das obras de Pullman. Mesmo que o filme dê pouca ênfase a mensagem de ateísmo, por meio dele muitos se interessarão pela leitura dos livros, que é verídico que são ofensivos à Igreja Católica. O filme que será lançado dia 25 de dezembro, é o mais “suave” da trilogia, pois as outras obras, “A Faca Sutil” e “A Luneta Âmbar”, atacam com mais agressividade a Igreja.
Em resposta às últimas críticas, Philip Pullman, simplesmente ironizou em seu site: “Não sei se existe Deus ou não. Ninguém sabe, digam o que disserem. Se ele se mantém invisível, é porque está envergonhado de seus seguidores e a crueldade e ignorância dos que fazem uso do seu nome. Se eu fosse ele, gostaria de não ter nada a ver com eles”.
O escritor é um ateu militante, sempre mostrou uma atitude combativa em relação à religião. Em fevereiro de 2006, se manifestou junto com outras personalidades culturais de Londres para reivindicar a abolição das antigas leis britânicas que protegem a Igreja Anglicana.
O próprio título original da trilogia “Fronteiras do Universo”, “His Dark Materials”, é uma alusão ao poema “Paraíso Perdido”, de John Milton (1608-1674), clássico que retrata o anjo caído (Satã) como um ser que desafia a onipotência do seu criador, Deus.
É evidente que a obra no cinema será fabulosa, com uma super produção e efeitos de perder o fôlego. Mas não podemos nos omitir a isso!!

2 comentários:

Tulio disse...

hey mate! legal o blog, botei no meu reader! vê se ecrever né?
vi esse filme, achei meio confuso. Entrei no wikipedia para poder saber mais sobre o filme e achei bem interessante o comentário que o autor fala sobre essa polêmica. Check it out:
http://en.wikipedia.org/wiki/Philip_Pullman#Religious_perspective

See ya!

XX

Unknown disse...

Achei muito legal o comentário da semana.
É bom que agente, conforme vai lendo, vai refletindo em qual das 3 pessoas nos enquadramos.
:D