quinta-feira, 29 de abril de 2010

DEUS NÃO RÍ NUNCA?

Na minha infância toda igreja protestante tinha um quadro terrível, chamado “Os dois caminhos”. À direita, o caminho estreito, das abstenções e sacrifícios, que conduz ao céu: para ganhar o céu, após a morte, é preciso sofrer na terra, durante a vida. À esquerda, o caminho largo, cheio de prazeres, que conduz a um lago de fogo e enxofre. No alto desse cenário, resumo do mundo, flutuando no céu azul, o olho sem pálpebras de Deus, que tudo vê, indiferente e sem lágrimas. O olho de Deus não tem pálpebras porque ele nunca se fecha. Deus não dorme. É também um olho sem sorrisos. Os olhos, para sorrir, precisam de um rosto. Mas os olhos de Deus não estão num rosto. Estão dentro de um triângulo, figura geométrica perfeita. Deus é um teorema. Mantenho uma dessas gravuras emoldurada em rococós dourados pendurada numa parede. Para não me esquecer das coisas horríveis que os homens fazem com Deus. Deus não ri nunca?

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Mais que um mero poema!

Parece estranho Sinto o mundo girando ao contrário Foi o amor que fugiu da sua casa E tudo se perdeu no tempo
É triste e real Eu vejo gente se enfrentando Por um prato de comida Água é saliva Êxtase é alívio, traz o fim dos dias E enquanto muitos dormem, outros se contorcem É o frio que segue o rumo e com ele a sua sorte
Você não viu? Quantas vezes já te alertaram Que a Terra vai sair de cartaz E com ela todos que atuaram? E nada muda, é sempre tão igual A vida segue a sina
Mães enterram filhos, filhos perdem amigos Amigos matam primos Jogam os corpos nas margens dos rios contaminados Por gigantes barcos Aquilo no retrato é sangue ou óleo negro?
Aqui jaz um coração que bateu na sua porta às 7 da manhã Querendo sua atenção, pedindo a esmola de um simples amanhã Faça uma criança, plante uma semente Escreva um livro e que ele ensine algo de bom
A vida é mais que um mero poema Ela é real

É pão e circo, veja A cada dose destilada, um acidente que alcooliza o ambiente Estraga qualquer face limpa De balada em balada vale tudo E as meninas Das barrigas tiram os filhos, calam seus meninos Selam seus destinos São apenas mais duas histórias destruídas Há tantas cores vivas caçando outras peles Movimentando a grife
A moda agora é o humilhado engraxando seu sapato Em qualquer caso é apenas mais um chato
E ainda que a velha mania de sair pela tangente Saia pela culatra O que se faz aqui, ainda se paga aqui Deus deu mais que ar, coração e lar Deu livre arbítrio E o que você faz? E o que você faz?
Aqui jaz um coração
(Guilherme de Sá)

O Rei Nu!

“Havia um rei muito tolo que adorava roupas bonitas. Os tolos, geralmente, gostam de roupas bonitas. Pois esse rei enviava emissários por todo o país com a missão de comprar roupas diferentes. Era o melhor cliente da Daslu. Os seus guarda-roupas estavam entulhados com ternos, sapatos, gravatas de todas as cores e estilos. Eram tantas as suas roupas que ele estava muito triste porque seus emissários já não encontravam novidades.
Dois espertalhões ouviram falar do gosto do rei pelas roupas e viram nisso uma oportunidade de se enriquecerem às custas da vaidade da Majestade. A vaidade torna bobas as pessoas: elas passam a acreditar nos elogios dos bajuladores... Foi isso que aconteceu com um corvo vaidoso que estava pousado no galho de uma árvore com um queijo na boca: por acreditar nos elogios da raposa ficou sem queijo...
Pois os dois espertalhões-raposa foram até o palácio real e anunciaram-se na portaria, apresentando o seu cartão de visitas: “Doutor Severino e Doutor Valério, especialistas em tecidos mágicos.”
O rei já havia ouvido falar de tecidos de todos os tipos mas nunca ouvira falar de tecidos mágicos. Ficou curioso. Ordenou que os dois fossem trazidos à sua presença. Diante do rei fizeram uma profunda barretada, tirando seus chapéus.
“Falem-me sobre o tecido mágico”, ordenou o rei.
Um dos espertalhões, o mais loquaz, se pôs a falar.
“Majestade, diferente de todos os tecidos comuns, o tecido que nós tecemos é mágico porque somente as pessoas inteligentes podem vê-lo. Vestindo um terno feito com esse tecido Vossa Majestade será cercado apenas por pessoas inteligentes, pois somente elas o verão...”
O rei ficou encantado e imediatamente contratou os dois espertalhões, oferecendo-lhes um amplo aposento onde poderiam montar os seus teares e e tecer o tecido que só os inteligentes poderiam ver..
Passados alguns dias o rei mandou chamar o ministro da educação e ordenou-lhe que fosse examinar o tecido. O ministro dirigiu-se ao aposento onde os tecelões estavam trabalhando.
“Veja, excelência, a beleza do tecido”, disseram eles com a mãos estendidas. O ministro da educação não viu coisa alguma e entrou em pânico. “Meu Deus, eu não vejo o tecido, logo sou burro...” Resolveu, então, fazer de contas que era inteligente e começou a elogiar o tecido como sendo o mais belo que havia visto.
“Majestade”, relatou o minsitro da educação ao rei, “o tecido é incomparável, maravilhoso. De fato os tecelões são verdadeiras magos!” O rei ficou muito feliz.
Passados mais dois dias ele convocou o ministro da guerra e ordenou-lhe que examinasse o tecido. Aconteceu a mesma coisa. Ele não viu coisa alguma. “ Meu Deus”, ele disse, “ não sou inteligente. O ministro da educação viu e eu não estou vendo...” Resolveu adotar a mesma tática do ministro da educação e fez de contas que estava vendo. O rei ficou muito feliz com a seu relatório. E assim aconteceu com todos os outros ministros. Até que o rei resolveu pessoalmente ver o tecido maravilhoso. Mas, como os ministros, ele não viu coisa alguma porque nada havia para ser visto. Aí ele pensou: “Os ministros da educação, da guerra, das finanças, da cultura, das comunicações viram. São inteligentes. Mas eu não vejo nada! Sou burro. Não posso deixar que eles saibam da minha burrice porque pode ser que tal conhecimento venha a desestabilizar o meu governo...” O rei, então, entregou-se a elogios entusiasmados ao tecido que não havia.
O cerimonial do palácio determinou então que deveria haver uma grande festa para que todos vissem o rei em suas novas roupas. E todos ficaram sabendo que somente os inteligentes as veriam. A mídia, televisão e jornais, convidaram todos os cidadãos inteligentes a que comparecessem à solenidade.
No Dia da Pátria, a cidade engalanada, bandeiras por todos os lados, bandas de música, as ruas cheias, tocaram os clarins e ouviu-se uma voz pelos alto-falantes:
“Cidadãos do nosso país! Dentro de poucos instantes a sua inteligência será colocada à prova. O rei vai desfilar usando a roupa que só os inteligentes podem ver.”
Canhões dispararam uma salva de seis tiros. Ruflaram os tambores. Abriram-se os portões do palácio e o rei marchou vestido com a sua roupa nova.
Foi aquele oh! de espanto. Todos ficaram maravilhados. Como era linda a roupa do rei! Todos eram inteligentes.
No alto de uma árvore estava encarapitado um menino a quem não haviam explicado as propriedades mágicas da roupa do rei. Ele olhou, não viu roupa nenhuma, viu o rei pelado exibindo sua enorme barriga, suas nádegas murchas e vergonhas dependuradas. Ficou horrorizado e não se conteve. Deu um grito que a multidão inteira ouviu:
“O rei está pelado!
Foi aquele espanto. Um silêncio profundo. Seguido pelo grito enfurecido da multidão.
“Menino louco! Menino burro! Não vê a roupa nova do rei! Está querendo desestabilizar o governo! É um subversivo, a serviço das elites!”
Com estas palavras agarraram o menino, colocaram-no numa camisa de força e o internaram num manicômio.

Moral da estória: Em terra de cego quem tem um olho não é rei. É rebelde ou doido.

fonte: (http://www.rubemalves.com.br/oreinu.htm)

domingo, 25 de abril de 2010

O menino e o sapato.

Dia desses peguei meu filho brincando com meu sapato. Meu sapato favorito. Suas mãos estavam sujas e ele nem parecia se incomodar com isso. Em nenhum momento passou por seus pensamentos que ele poderia estar estragando meu sapato favorito. Alí estavam, meu filho e meu sapato favorito, prestes a ser danificado por este pequeno ser sem o mínimo de consideração pelas minhas coisas. Justo eu, tão cuidadoso com meus pertences.
Detesto as coisas fora do lugar, ou sujas, empoeiradas.
Me chamam de materialista, mas só eu sei quanto custa cada coisa que tenho guardado até hoje. Dizem que não vou levar as coisas materiais para o lugar onde iremos na eternidade, mas não é por causa disse que vou deixar tudo ao deus-dará.

Aqui estou eu, diante desta cena, meu filho brincando com meu sapato favorito. Ainda esta semana engraxei meu sapato com tanto carinho, e agora, meu filhinho brinca com ele.

Como aprendeu a andar rápido, e já fica tentando colocar o sapato do papai. Como é parecido comigo, adoro quando ele me olha e dá um sorrisinho, como quem procura aprovação.

Como não retribuirei a este sorriso? Como não amá-lo? Meu filho! (Quem se importa com um sapato?)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Proposta Radical de Espiritualidade

A espiritualidade na época de Jesus era avaliada pela estética. Em especial para os fariseus, grupo sectário dentro do judaísmo, tudo o que importava era cumprir um programa de aparência exterior. Qualquer coisa que fugisse daquele padrão por eles estabelecido os agredia e era considerada uma heresia.
Os tempos mudaram, mas o modo como se avalia a espiritualidade de alguém, não. Ainda se usam as mesmas medidas dos fariseus contemporâneos de Jesus. Ainda se valoriza uma espiritualidade apenas estética. Ainda há melindres e preconceitos mil. Ainda se julga pela aparência.
Jesus faz uma proposta muito, mas muito mais radical de espiritualidade: amar a Deus com todas as suas forças, entendimento e de todo o coração e ao próximo como a si mesmo. Tornar-se um cristão não é converter-se a uma doutrina, mas ao amor.
Jesus quebrou os paradigmas da época para viver uma espiritualidade baseada tão-somente no amor, que é a graça. Ele disse algumas vezes que veio para salvar e não para condenar, veio para os doentes e não para os (que se acham) sãos.
Isso fica bem claro quando ele dialoga tranquilamente com uma mulher samaritana (o que era proibido aos “homens de bem” da época), quando, em vez de dispensar uma multidão faminta, sente compaixão dela e a alimenta, quando recebe a unção por uma “pecadora” que chora aos seus pés e os enxuga com os cabelos, quando ele perdoa uma mulher que a turba estava disposta a apedrejar.
Tem, pois, Jesus, autoridade para nos fazer um chamado radical, para viver uma espiritualidade baseada no amor. Espiritualidade cristã é saber amar. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Lembrando que o próximo a ser amado é a minha família, meus amigos, meus irmãos, mesmo pessoas desconhecidos e até inimigos.
O chamado é para um amor semelhante ao de Deus, que não cobra nada, não cobra desempenho, apenas se oferece. É aquele amor que cobre uma multidão de pecados. Que não se importa em ter uma verdade superior e implacável, mas que apenas ama. É um amor que não reprova todos ao redor, mas apenas ama.
Desconfie de quem mantém uma estética espiritual e religiosa irrepreensível, mas fala de outros de maneira impiedosa e implacável.

Os fariseus saíam de suas orações e jejuns para planejar o assassinato de Jesus.

Quem ama, ama a despeito dos muitos defeitos dos outros e reconhece as suas próprias fragilidades e limitações. Quem ama sempre tem uma palavra de apreço, de compaixão e de misericórdia, porque a boca fala do que o coração está cheio.
Com indivíduos conscientes dessa radicalidade do amor, a igreja deve ser uma comunidade de amor. Não um amontoado de gente implacável e sem misericórdia. Não é um museu para santos, mas um hospital para pecadores, como disse Brennan Manning. Um lugar que seja um oásis de amor, em meio a um deserto de indiferença, onde com graça, todos, indistintamente, sejam acolhidos. E isso é muito radical.
Por Márcio Rosa da Silva.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

BILLY GRAHAM - 1998

Dia desses, flagrei-me triste...

Dia desses, flagrei-me triste de tão solto. Faz tempo que me incomoda uma leveza ruim. Sinto meus afetos pulverizados por todas as minhas partidas. Não sei o que é viver mais que cinco anos em um mesmo lugar.
Invejo os velhos amigos. Meus velhos já não são tão amigos. Boquiaberto e silente, observo o desconhecido mundo daqueles que convivem desde há muito. Nem tenho sotaque, nem grandes e antigas amizades, nem velhas memórias da mesma história, nem o silêncio da intimidade que prescinde das palavras e nem as conquistas que demandam tempo.
O tempo? Nada dele sei. Sei do espaço. Percorro tantos quanto fôlego precisar para do tempo fugir. Sei do Rio, Fortaleza, São Paulo, Curitiba, Brasília. Mas de ontem eu me esqueci. Não tenho ontem. Tenho somente lugares.
Despedi-me de todos os meus amigos. Sou um Sísifo dos afetos. Ah! Sei tudo de recomeço. Condenei-me a sempre empurrar morro acima minhas novas histórias, amizades e projetos. Quando chego, já estou indo. Se você precisar de conselhos sobre como reiniciar a vida, pergunte-me. Contanto que nada queira saber sobre conclusões. Nada sei sobre os dias seguintes.
Talvez por isso tenha aprendido a amar as corridas de rua. Esporte dos solitários. Daqueles que conseguem ir mesmo que desacompanhados. Daqueles para quem importa mais ir que ficar. Cada corrida é uma despedida e toda chegada é provisória. A alegria da medalha apenas indica a próxima aventura. Somente quem nunca chega o bastante está apto para ser um corredor de rua.
Mas sou bom de conversa. Tenho muitas histórias para contar, caso aceite minhas várias e avulsas memórias. Mas por favor, como já combinamos, não me pergunte sobre depois. Toda sequência é para mim uma incógnita.
Sinto-me um Don Juan. Aprendi a seduzir, mas não sei não me despedir. Medo de chegar? Medo de nunca chegar? Medo de chegar aonde realmente quero? Talvez. Tais vezes.

domingo, 11 de abril de 2010

Digno de ser lembrado.


Na partida do ano, não deu pra ninguém mesmo, o nome do jogo foi MESSI. Sendo que em inglês a palavra "Mess" significa bagunça, o bagunceiro "Messi" abafou grandes nomes como os de Kaká e Cristiano Ronaldo. Sem dúvida é pra ficar na história do futebol. (pra quem gosta).

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Eu também não te condeno


Pode procurar que você não vai achar. Não importa aonde vá, estou absolutamente convencido de que há duas coisas que você nunca vai achar. Você pode correr o mundo e o tempo, e tenho certeza que jamais conseguirá achar alguém que não se envergonhe de algo em seu passado. Para qualquer lugar que você vá, lá estarão elas, as pessoas que gostariam de apagar um momento, uma fase, um ato, uma palavra, um mínimo pensamento. Todo mundo tenta disfarçar, e certamente há aqueles que conseguem viver longos períodos sem o tormento da lembrança. Mas mesmo estes, quando menos esperam são assombrados pela memória de um ato de covardia, um gesto de pura maldade, um desejo mórbido, um abuso calculado,enfim, algo que jamais deveriam ter feito, e que na verdade, gostariam de banir de suas histórias ou, pelo menos, de suas recordações.Isso é uma péssima notícia para a humanidade, mas uma ótima notícia para você: você não está sozinho, você não está sozinha.
Inclusive as pessoas que olham em sua direção com aquela empáfia moral e sugerem
cinicamente que você é um ser humano de segunda ou terceira categoria, carregam
uma página borrada em sua biografia
grampeada pela sua arrogância e selada pelo medo do escândalo, da rejeição e da condenação no tribunal onde a justiça jamais é vencida. Você não está sozinho. Você não está sozinha. Não importa o que tenha feito ou deixado de fazer, e do que se arrependa no seu passado, saiba que isso faz de você uma pessoa igual a todas as outras: a condição humana implica a necessidade da vergonha.A segunda coisa que você nunca vai encontrar é um pecado original. Não tenha dúvidas, o mal que você fez ou deixou de fazer está presente em milhares e milhares de sagas pessoais. Não existe algo que você tenha feito ou deixado de fazer que faça de você uma pessoa singular no banco dos réus – ao seu lado estão incontáveis réus respondendo pelo mesmíssimo crime. Talvez você diga, “é verdade, todos têm do que se envergonhar, mas o que eu fiz não se compara ao que qualquer outra pessoa possa ter feito”. Engano seu. O que você fez ou deixou de fazer não apenas se compara, como também é replicado com absoluta exatidão na experiência de milhares e milhares de outras pessoas. Isso significa que você jamais está sozinho, jamais está sozinha, na fila da confissão.Talvez por estas razões, a Bíblia Sagrada diz que devemos confessar nossas culpas uns aos outros: os humanos não nos irmanamos nas virtudes, mas na vergonha. Este é o caminho de saída do labirinto da culpa e da condenação: quando todos sussurrarmos uns aos outros “eu não te condeno”, ouviremos a sentença do Justo Juiz: “ninguém te condenou? Eu também não te condeno”.É isso, ou o jogo bruto de sermos julgados com a medida com que julgamos. A justiça do único justo reveste os que têm do que se envergonhar quando os que têm do que se envergonhar desistem de ser justos.
Por Ed René Kivitz